A importância do espaço escolar para o desenvolvimento socioemocional dos estudantes

9 de abril de 2021


Ter uma vida social é fundamental à existência e à sobrevivência humana. Enquanto indivíduos, é na família que se dá início a esse processo. Já na escola, ele se amplia e concretiza. É a partir daí, que a criança faz uma passagem da vida privada para a coletiva. Nesse sentido, o espaço escolar se torna uma ferramenta que ajuda crianças e adolescentes a muito mais do que aprender a ler e contar: é o local onde aprendem a se comunicar, fazer amigos, resolver problemas, ou seja, iniciam seu desenvolvimento socioemocional. 

A relação estudante/professor é a pedra angular desse processo de amadurecimento social. Cultivar um relacionamento positivo com uma figura adulta não parental permite que se definam, adaptem-se ao seu ambiente e desenvolvam sua educação socioemocional. Porém, é nas interações com os colegas que todos aprendem não só sobre cooperação, confiança, lealdade e apoio, mas também sobre si mesmos, entendendo e expressando suas próprias emoções, assim como tomando decisões bem pensadas, lidando com desafios e aceitando responsabilidades.

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Quando a socialização é importante?

Até os dois anos de idade, aproximadamente, as crianças estão mais interessadas em seus brinquedos do que umas nas outras. O que não quer dizer que bebês não precisam de interação para progredir em seu desenvolvimento socioemocional, apenas que eles se concentram mais nos pais e responsáveis ​​do que nas crianças de sua idade. Em algum lugar entre as idades de dois e três anos, é quando começam a notar umas às outras e aprendem importantes lições de vida que as preparam para transições difíceis. As interações nesta faixa etária tornam-se essenciais na etapa da Educação Infantil, já que podem se integrar melhor a um ambiente de aprendizagem em grupo. É também nessa idade que as crianças começam a entender o valor das amizades. 

A partir do Ensino Fundamental, os grupos de colegas se tornam influentes, ajudando-os a desenvolver um senso de identidade. Por isso, ficar isolado em casa por meses tem uma perspectiva muito diferente para uma criança de seis anos e para um adolescente de 14. Já que é por volta dessa idade que a vida social assume uma importância crescente no desenvolvimento de habilidades. Adolescentes querem descobrir em quem confiam, quem gosta deles e como encontrar um nicho onde possam brilhar. Esse aspecto do crescimento ganha alta velocidade nos anos do Ensino Médio.  

Possíveis impactos da socialização perdida

Em meio a todos os acontecimentos ocasionados pelo novo coronavírus (Covid-19), com as escolas fechadas, o desenvolvimento socioemocional das crianças e jovens, possivelmente, será afetado. Já que isolados em casa, o contato com o outro foi limitado aos familiares e a formais interações com colegas e professores somente nas aulas remotas.

Muito do que se sabe sobre o papel da interação no espaço escolar e das consequências de sua falta, tem suas origens no trabalho de Lev Vygotsky. O psicólogo afirmou que a aprendizagem é relacional e que a linguagem/conversação é central. Ou seja, para ele, o desenvolvimento da criança se dá pelas interações com outros indivíduos da mesma idade em um processo que determina o que será internalizado por ela para espelhar em toda a sua vida. É, também, mediada pelo grupo que a criança adquire estruturas linguísticas e cognitivas.

Outro filósofo a falar do assunto foi Martin Buber, que considera a estrutura social do ensino imprescindível para a forma como aprendemos e para o desenvolvimento da cultura humana em geral. Segundo ele, a consciência só surgiria por meio desses relacionamentos. Buber foi um dos primeiros a defender a ideia de que a melhor maneira de ensinar um estudante é vê-lo como um ser humano completo, complexo e empático. 

Como avaliar se a criança ou adolescente teve seu desenvolvimento socioemocional  afetado?

Existem alguns sintomas comuns que os pais/responsáveis e educadores devem observar e que indicam que o estudante está tendo dificuldade em controlar suas emoções em torno das expectativas de socialização ​​que a pandemia gerou: 

Mudanças de humor

Se seu filho ou estudante parece mais irritado ou “rabugento” do que o normal, isso pode ser um sinal de que ele está tendo dificuldade em entender como se sente, mesmo que não perceba. 

Afastando-se de seus entes queridos

A criança ou adolescente está se isolando cada vez mais no quarto e se comunicando cada vez menos com você? Isso pode ser uma parte típica da adolescência, mas se for incomum à personalidade dele(a), tente iniciar uma conversa sobre o que ele(a) está sentindo e perguntando como você pode ajudá-lo(a).

Passar mais tempo do que o normal em dispositivos eletrônicos

Conectar-se com amigos em dispositivos fora da escola é saudável e oferece suporte à socialização. Visto que muitos estão voltando para a escola virtualmente, espera-se que a grande maioria das crianças já estejam online durante boa parte do dia – mas é importante que os pais fiquem atentos ao monitorar o tempo de tela de seus filhos fora do horário de aprendizagem. Se seu filho já está online há boa parte do dia, que tal sugerir sentar e conversar sobre outros assuntos ? 

Promova relacionamentos

Várias táticas foram adotadas globalmente por pais e professores para fazer com que as crianças se conectassem com seus colegas. Jogos virtuais e cartas escritas à mão são alguns exemplos. Os jogos são uma ótima ideia porque a depender de suas regras, estimulam o revezar e compartilhar.

É importante que as instituições educacionais não se concentrem apenas na aprendizagem acadêmica nas aulas online, mas também incorporem a promoção de outras habilidades no currículo, especialmente aquelas que estão sendo perdidas no momento.  Como adultos que desempenham um papel na vida deles, é responsabilidade dos pais/responsáveis e educadores tranquilizá-los sobre sua segurança e rotina. Tudo isso vai passar, mas até lá não se esqueça de garantir a eles diálogo sempre, para que se desenvolvam de forma holística.

revista Arco 43