Existe forma certa de registrar?

17 de fevereiro de 2021


O registro faz parte da vida do(a) professor(a). Assim, não pode ser olhado apenas como resultado de um produto finalizado, uma avaliação, um relatório. A documentação pedagógica contém muitas informações e pode ser criada de diferentes maneiras. Pode partir de uma provocação, de um pensamento, de uma situação vivenciada. Mas, principalmente, pode se tornar anotações impulsionadoras de novas propostas. Considerando essa reflexão, em que formato os registros podem ser produzidos?

Para a arte-educadora Gisa Picosque, uma das autoras do livro Conhecer e Transformar: [Projetos Integradores] – Linguagens e suas Tecnologias, da Editora do Brasil, não há formatos específicos para a documentação pedagógica. Cada professor(a) pode escolher como fazer seus registros. “Eu, pessoalmente, gosto de escrever em caderno sem pauta, usando lápis preto e um outro lápis colorido para marcar, assinalar, desenhar ou escrever algo que eu mesma tenha que ter atenção quando for ler”. 

O registro, assim, é feito durante a aula, apontando impressões, observações sobre o que está acontecendo e de que modo vai se desenrolando um determinado aspecto que está sendo investigado. Dessa maneira, a escrita do registro não é uma lição passada a limpo, e sim uma escrita viva, que revela a intensidade de quem vive a vida pedagógica.

Documentação pedagógica a partir da fotografia

A partir disso, surge uma outra pergunta: a fotografia, tão presente no cotidiano, pode ser considerada registro de um processo? O que ela nos revela? Sim, uma fotografia pode ser um registro de um processo – desde que se tenha a compreensão que a foto, quando captada, mostra algo que está acontecendo naquele momento. Mas será que ela diz o porquê daquilo que foi captado?

Roland Barthes, em seu livro A Câmara Clara, afirma que “uma foto é sempre invisível: não é ela que vemos”. Então o que vemos? Perceber o que está sendo visto é um processo que envolve os nossos sentidos para tentar entender o todo que está relacionado à ação. Para que isso ocorra, uma primeira atitude é necessária: ter um olhar aberto, sensível e disposto a investigar e compreender o que é singular a cada indivíduo ou objeto. O que é diferente do esperado e, principalmente, “o todo”, pois cada ação está relacionada a uma narrativa. Algo aconteceu antes e algo irá acontecer depois.

Imagem e textura

O artista visual Alfredo Nicolaiewsky, em sua tese em Artes Da Ordem do Enigma – Fragmentos Justapostos, conclui outro ponto importante na observação de uma imagem. Ele diz: “temos na foto, como parte integrante dela, uma textura, inseparável das imagens, na verdade formadora das imagens, e que poderá levar o espectador a outra visão, a outra percepção do que está vendo. Talvez se dê conta que o que vê (pessoas, paisagens) não é o referente, mas a fotografia de uma representação do referente (a imagem de uma imagem)”.

Nicolaiewsky propõe a textura como parte integrante da ação. Consultando o significado da palavra “textura”, observa-se que tem a mesma raiz que a palavra “texto” (textu). Dentro dessa definição, a imagem captada apresenta em seu contexto uma narrativa similar a outras narrativas, como a de uma sequência de imagens, um filme ou a narrativa de um texto. Essa dupla possibilidade é bastante ampla e inegavelmente inseparável. 

Com esses pensamentos, chegamos em outra pergunta: como se lê uma imagem? 

Com um olhar que investiga, indaga e vai além para compreender o que ocorreu no momento da captação. Olhar perceptivamente, tendo o cuidado de perceber o todo, inclui a escuta de silêncios e dos sons das informações. Ver e escutar fazem parte do mesmo processo. Em muitas ocasiões, temos dificuldade para ver e para escutar; não ouvimos o que as outras pessoas falam, o que as imagens falam, o que as informações falam. Pois, prestamos atenção naquilo que gostaríamos de ouvir, ver ou ler. Nesse sentido, não absorvemos a colaboração dos outros; não agregamos o que nos é sinalizado ou sugerido. 

Essa busca para compreender o que está diante dos olhos necessita de uma metodologia que envolve buscar informações que garantem levantar o contexto. Além de verificar o que está evidente e óbvio e o que não está. O olhar não se limita a ver; ele também possibilita o sentir, buscar respostas, experimentar e construir percursos, registrar e refletir sobre o que foi visto. Nessa construção, o registro e, por fim, a documentação pedagógica, são o modo de concretizar aquilo que está sendo percebido. Bem como de construir um pensamento criativo.

Todas as formas de registro são válidas: fotografias, desenhos, gráficos, anotações e/ou descrições. O registro do que está em processo, para estar sempre presente, está diretamente ligado à maneira de ser de cada um. O importante é armazenar indagações, dúvidas, novos percursos, enfim – todas as alternativas à frente. Essas anotações serão embriões de outras reflexões em um outro momento e podem se tornar uma nova criação.

revista Arco 43

Referências Bibliográficas
Livros

BARTHES, Roland. A Câmara Clara (texto integral): nota sobre fotografia. São Paulo: Nova Fronteira, 2012. il Saraiva de Bolso. 

FREIRE, Madalena. Observação, registro e reflexão. Instrumentos Metodológicos I. 2ª ed. São Paulo: Espaço Pedagógico, 1996. 

____. Educando o olhar da observação. In: Educado. São Paulo: Paz e Terra, 2008.

Sites

CARDOSO, Sérgio. O Olhar dos Viajantes (do Etnólogo). Arte Pensamento – IMS.
GISA Picosque fala sobre a importância de fazer registros e sua arte. Tempo de Creche. 

Tese de doutorado em Artes

NICOLAIEWSKY, A. Da Ordem do Enigma – Fragmentos Justapostos. Tese (Doutorado em Artes Visuais) – Instituto de Artes, Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Porto Alegre, 2003.