Meninas na Ciência: escola pode ajudar a reduzir desigualdades de gênero?

8 de fevereiro de 2021


Desde 2015, a partir de uma iniciativa da UNESCO e da ONU, comemora-se o Dia Internacional das Mulheres e Meninas na Ciência em 11 de fevereiro. A data tem importante significado em um mundo onde elas foram excluídas da educação formal por muitas décadas ou tiveram seus feitos apagados. Vide a história de Rosalind Franklin, química britânica nascida em 1920, que não foi reconhecida por sua contribuição para o anúncio da dupla hélice do DNA. O prêmio Nobel de Fisiologia e Medicina foi concedido em 1962 para Francis Crick, James Watson e Maurice Wilkins. Rosalind ficou de fora da história por mais de meio século, até seu trabalho ser finalmente reconhecido.

Casos como esses  refletem e influenciam o panorama educacional até os dias de hoje.  Meninas e mulheres encontram historicamente um muro de disparidade entre os gêneros na carreira e produção científica. A atual realidade, apesar de o número de formadas em bacharelados, licenciaturas e mestrados ser equiparável ao de homens, ainda é preocupante. Elas continuam a ser minoria nos doutorados e pós-doutorados. Os homens, por sua vez, continuam a publicar mais artigos e ter autorias principais. Inclusive, sendo mais citados que as mulheres.

É justamente esse cenário que traz dados como os obtidos em um estudo europeu de 2017, feito pela Microsoft. Nele, constatou-se que aos 11 anos e meio as meninas começam a se interessar por carreiras de Ciência e Tecnologia, mas aos 15 passam a achar que não se encaixam nessas profissões. A maioria delas, 60%, afirmou, também, que se sentiriam mais confortáveis em seguir tais carreiras se soubessem que há oportunidades iguais para homens e mulheres.

Meninas na Ciência: o papel da escola

Existem desigualdades expressivas no ensino em geral, bem como em relação às áreas de estudo, com as mulheres sendo significativamente sub-representadas nas engenharias, ciências e tecnologia. No entanto, a igualdade de gênero é crítica para o avanço da ciência e para o alcance da alfabetização científica global. Equidade aqui significa garantir que  todos os estudantes, de qualquer sexo, identidade, expressão de gênero ou orientação sexual – independentemente da origem – tenham autonomia, sejam desafiados, apoiados e encontrem acesso total para se tornarem futuros cientistas bem-sucedidos.

Exemplos como o de Marie Curie, primeira mulher a ganhar o Prêmio Nobel, primeira pessoa a receber o Prêmio duas vezes, além de, durante muito tempo, a única a recebê-lo em dois campos científicos diferentes, devem ser tratados e exibidos no incentivo às carreiras científicas. Dar às mulheres oportunidades iguais para seguir – e prosperar – em carreiras STEM (sigla em inglês para Ciência, Tecnologia, Engenharia e Matemática), ajuda a reduzir a disparidade salarial de gênero, aumenta a segurança econômica das mulheres e garante uma força de trabalho diversificada e talentosa. Ademais, evita preconceitos nessas áreas e nos produtos e serviços que produzem.

Dê às meninas habilidades e confiança para ter sucesso 

Imagens persistentes e subconscientes de matemáticos e cientistas do sexo masculino que começam desde a mais tenra idade podem ser uma explicação de por que as meninas entram nos campos STEM com taxas dramaticamente menores do que os meninos. Mas os professores podem desempenhar um papel significativo em influenciar ou dissipar estereótipos na educação:

  • Para isso, aumente a conscientização de que meninas são tão capazes quanto meninos quando recebem incentivo e oportunidades educacionais;
  • Promova a conscientização dos pais e responsáveis sobre como podem encorajar as filhas e filhos em matemática e ciências – apoiando oportunidades de aprendizado e mensagens positivas sobre suas habilidades;
  • Ensine que as habilidades matemáticas são aprendidas e mudam com o tempo, ou seja, promova uma mentalidade de crescimento que capacite a aceitação de desafios;
  • Pratique a autorreflexão sobre os preconceitos que você mesmo possa ter relacionados ao gênero. Isso inclui estar consciente de suas palavras, ações, expectativas e estereótipos para todas as expressões de identidade de gênero;
  • Certifique-se de que cada estudante seja exposto a metodologias do STEAM (sigla em inglês para Ciência, Tecnologia, Arte e Matemática) nos Ensinos Fundamental e Médio;
  • Mude a forma como as aulas são ministradas, conectando experiências de ensino a vida real, promovendo o aprendizado ativo e prático, e enfatizando as formas como a ciência é colaborativa e voltada para a comunidade;
  • Aumente a conscientização sobre o Ensino Superior e as oportunidades de carreira e programas de orientação com mulheres e para mulheres;
  • Para os gestores, cabe fornecer educação profissional aos professores, buscando abordar vieses implícitos e sistêmicos para aumentar a conscientização sobre as habilidades matemáticas das meninas em sua instituição de ensino.

Meninas na ciência, que tal trabalhar com exemplos?

Selecionar biografias de grandes mulheres pode ser muito motivador para trazer as meninas para a ciência. Ao promover modelos culturalmente diversos que representam todas as expressões de identidade, tornar os sonhos realidade parece muito mais palpável. Precisa de exemplos? Que tal Alice Ball (1892 – 1916), Química e primeira mulher afro-americana a fazer um mestrado na Universidade do Havaí. Ela desenvolveu um tratamento injetável para hanseníase que se tornou o padrão por mais de duas décadas. Nas aulas de Ciências da Natureza e suas tecnologias, aproveite para ler sobre ela e experimente ensinar conceitos de química de forma divertida. Por exemplo, como separar uma mistura utilizando repolho roxo para abordar pH, acidez e alcalinidade.

Pensando em uma identificação local, Bertha Lutz (1894 – 1976) é um ótimo exemplo. A bióloga paulista, internacionalmente conhecida, especializada no estudo de anfíbios, é muito admirada também por suas contribuições na luta pelo voto feminino e consolidação de direitos iguais entre homens e mulheres no Brasil. Conte sua história em sala de aula e, ao abordar o ciclo de vida da natureza, peça a turma que comece seus próprios diários, documentando e desenhando o que vêem ao redor de onde vivem. Essa é uma oportunidade para ensinar e incentivar o pensamento e a linguagem científica. 

Fonte: Revista Mulheres na Ciência; Mulheres na Ciência – o futuro é feminino.

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