O tempo norteia o planejamento escolar?

18 de janeiro de 2021


Atualmente, é habitual desenvolver o planejamento escolar com base nas propostas curriculares elaboradas pelo estado ou pelo sistema educacional acordado. Muitas vezes, não há espaço para discussão. Assim, planejar os conteúdos para o ano a partir do número de aulas e do tempo disponibilizado para uma aula acaba se tornando a regra. 

Seria esta a única possibilidade? Esta não seria uma forma acomodada de lecionar e ter a sensação de “missão cumprida” com inúmeros relatórios preenchidos? Será que podemos ir além disso?

Para responder a tais questionamentos, é necessário entender, em primeiro lugar, que os planejamentos estão diretamente atrelados ao tempo. Logo, as perguntas iniciais para chegar a uma resposta está em: o que significa tempo para você? Quais são os tempos que norteiam o seu dia a dia?

Segundo a definição do dicionário Michaelis, tempo é um “período de momentos, de horas, de dias, de semanas, de meses, de anos etc. no qual os eventos se sucedem, dando a noção de presente, passado e futuro.”

Porém essa definição nos leva a outra pergunta: existem outros tempos?

Na reflexão sobre o tempo, os filósofos gregos propunham diferenciar o tempo cronológico do tempo da criação. Para eles, existiam outros tempos, como o tempo Cronos e o tempo Áeon.

  • Cronos, como o próprio nome sugere, refere-se ao tempo cronológico,  que pode ser medido. Ele está diretamente associado à batida dos minutos do relógio, indicando que todas as ações têm um início e um fim.
  • Áeon ou Aión, que tem origem da palavra grega αἰών, pode ser entendido como “tempo da vida” e está relacionado a um tempo sem medida precisa. Um tempo da criatividade, da inspiração, no qual o relógio não é um determinante.

Se o tempo Cronos determina como deve ser distribuído o trabalho nos minutos estabelecidos pelo relógio para o período de aula, como trabalhar, então, com o tempo Áeon? Esse tempo possibilita desenvolver o protagonismo do estudante? 

Você já pensou em um planejamento escolar por projetos?

Se você olhar para o projeto como uma atitude pedagógica – pedagogia de projetos, projetos de trabalho e projetos de ação –, e não como uma metodologia, um passo a passo, o modo tradicional apoiado apenas na transmissão e na reprodução do conhecimento, é possível encontrar outros caminhos a partir de outros tempos. Comece percebendo que a palavra projeto está relacionada ao que é proposto e parte dos interesses e questionamentos dos envolvidos, ou seja, dos estudantes.

É possível trabalhar por projetos no tempo Cronos? 

Trabalhar por projetos parte de uma questão ou uma situação-problema e tem o período em sala de aula não mais como o único momento de realização, e sim como lugar de diálogo e criação que oportuniza a troca, a discussão e as reflexões. Isso transforma os estudantes em protagonistas e você, professor, em mediador, que irá intermediar todos os questionamentos e as diversas argumentações. Ou seja, trata-se de um novo olhar!

Esse pensamento, elaborado com a colaboração de todos, gera engajamento, despertando interesses e pesquisas direcionadas. Tal consenso entre os grupos de estudantes irá indicar propósitos a serem investigados, e seu desenvolvimento possibilitará que cada um dos alunos contribua com suas habilidades e competências ao pôr em prática o que foi discutido. 

Essas buscas expandem o tempo cronológico, permitem o nascimento do tempo Áeon e possibilitam um mergulho em suas investigações com curiosidade e vontade de pesquisar. É nesse processo que cada estudante elabora e interage interdisciplinarmente a partir de cada investigação e criação. Cada estudante torna-se “cúmplice” do planejamento elaborado por todos. E o seu olhar sensível ao mediar cada etapa, professor, é aquele que educa e propicia ao estudante perseguir experiências que lhe atravessam e provocam aprendizados. 

E os projetos dentro de Linguagens e suas Tecnologias?

A área de Linguagens e suas Tecnologias é composta por Arte, Educação física, Língua Portuguesa e Língua Inglesa.  Em Arte os projetos estão mais embasados no tempo Áeon pelas diretrizes da Base Nacional Comum Curricular (BNCC) referentes a esse campo do saber. Em Arte, as unidades na BNCC estão divididas em objetos de conhecimentos e entre eles estão processos de criação, não mais apenas como um “fazer”. O que significa essa mudança?

Se voltarmos a consultar um dicionário, no caso o Aurélio, encontraremos a definição da palavra processo como “ação contínua e prolongada, que expressa continuidade na realização de determinada atividade”. Essa definição compactua com o conceito de um pensamento em construção, defendido por Cecilia Almeida Salles no livro Gesto Inacabado: processo de criação artística. A autora propõe em sua narrativa uma sequência de ações, tais como investigação, coletas de dados, experimentação, fazer e refazer, reorganização e criação, para gerar ações transformadoras nos percursos criativos e que nem sempre chegam a um resultado final, porém levam ao desenvolvimento de percursos singulares. 

Os processos de criação são processualidades e, por isso, dialogam com múltiplas materialidades físicas e digitais (se afastando dos materiais tradicionais de arte), propiciando, muitas vezes, percursos pela interdisciplinaridade. Esse diálogo intrínseco no trabalho dos processos de criação e as múltiplas materialidades da contemporaneidade levam às ações de criação no tempo Áeon, ou seja, no tempo de uma criação significativa. 

*Por Maria Helena Webster e Equipe de Linguagens