Pensando a poesia na sala de aula

22 de março de 2021


Já dizia Fernando Pessoa, o poeta é um fingidor. “Finge tão completamente que chega a fingir que é dor / A dor que deveras sente”. De tão bem simular, cria um mundo sensitivo capaz de envolver e elevar os seus leitores. Essa é a capacidade quase mágica que a poesia tem e que, todos os anos, desde 1999, é homenageada pela UNESCO em 21 de março: Dia Mundial da Poesia. A data foi criada com o objetivo de estimular a produção e celebrá-la como forma de arte em todo o mundo. Considerando que esse gênero literário não se limita ao aspecto artístico,  mas também como uma ferramenta para a educação formal e informal: pensar a poesia na sala de aula é propagá-la. 

É por isso que a UNESCO estimula e apoia a educação artística, como meio de fortalecer o desenvolvimento intelectual, emocional e psicológico. Bem como, forma de instigar gerações que são mais equilibradas e capazes de reinventar o mundo. Poesia oferece a professores e estudantes a oportunidade de mergulhar de cabeça na escrita criativa e em uma infinidade de outras atividades interdisciplinares. Apesar da tradição, o estudo não precisa viver apenas nas aulas de Literatura. Afinal, existem inúmeras maneiras de combinar habilidades e áreas de conteúdo. Quem disse que os assuntos têm que ficar separados? Fazer conexões reais pode ser um caminho para um aprendizado mais profundo e duradouro.

A poesia na sala de aula

Quando o conceito de poesia é apresentado aos estudantes, seus primeiros pensamentos são geralmente em torno de uma bela linguagem rimada, emocional e fácil de lembrar. Embora tudo isso deva fazer parte do kit de ensino-aprendizagem, é essencial que eles também entendam a forma criativa na hora de praticar esse gênero além dos estudos literários. Acima de tudo, ler e escrever poesia na sala de aula pode ser divertido e uma boa forma de vazão aos sentimentos e posicionamento no mundo.

Como escolher o caminho da poesia na sala de aula?

A primeira coisa a considerar é qual o objetivo do trabalho. Por exemplo, se pensarmos que a origem da poesia é oral e em seu cerne, cantada pelos rapsodos gregos, servia como ferramenta de ensino de História, temos um viés de utilização. A partir daí, cabe ao educador escolher recortes para abordar os poemas como expressões líricas da experiência humana e dos sentimentos de uma época.

Usar a poesia na sala de aula para compreender as realidades históricas pode impactar profundamente os jovens e ajudá-los a desenvolver uma compreensão empática dos seres do passado. Torna a disciplina mais humana e, talvez, todos possam se identificar também como parte dessa evolução e pensar que seus registros são parte do futuro da humanidade. Considerando o atual contexto da pandemia e distanciamento social, uma ideia é pedir que escrevam poemas sobre o momento que vivemos e seus mais diversos sentimentos. Sempre encorajando-os a assumir o ponto de vista de alguém que está vivenciando um evento histórico. Essa é uma atividade para trabalhar a poesia em sala de aula e, também, uma oportunidade de deixar o protagonismo juvenil aflorar.

Quem sou eu?

Um poema, como uma auto análise, é uma boa forma de apresentar a poesia e permitir que os discentes extravasem a forma. O processo é simples: peça a cada um para se descreverem, uma terceira pessoa ou um objeto. O educador pode estabelecer regras, estruturas ou não. É uma estratégia simples e que tem o grande poder de envolver, ao mesmo tempo que implementar um processo para a auto expressão. Ao fim, a turma pode ler seus poemas entre si, se conhecerem e quebrarem o gelo de aulas remotas, por exemplo.

Concentrando-se na forma

A poesia das formas tem a ver com o formato físico das palavras no papel, como os haicais e a poesia concretista. Nela, embora as palavras, o estilo de escrita e os recursos literários tenham impacto no significado, é a forma física que é significativa. Pensando em crianças menores, esta é uma maneira simples e divertida de abordar a poesia na sala de aula de forma mais visual.

Outra ideia é pedir aos estudantes que selecionem um poema favorito e o ilustrem. Isso pode ser feito em papel ou digitalmente. Após a atividade, convide a classe a fazer um “passeio poético” e compartilhar suas impressões sobre os poemas ilustrados. Além disso, ao arquivar todo o material, as possibilidades de discussões serão mantidas o ano todo. Essa é uma maneira ótima e fácil de começar a explorar poemas e poetas enquanto mistura a arte no processo de assimilação.

Use poesia para demonstrar compreensão

Depois de ler um artigo, peça aos estudantes que criem uma poesia para resumir o entendido. Pode ser algo visual, usando marcadores e riscando o conteúdo até que as palavras formem um poema ou mesmo rimando palavras e conceitos. É uma ideia utilizável em todas as disciplinas e quanto mais frequente, melhores se tornam seus poemas.

Comece cada novo conceito com um poema relacionado

Aqui as atividades interdisciplinares podem render e muito. Mostre as turmas que poesia não é apenas para as aulas de Literatura, trabalhando em colaboração com colegas de outras áreas de conteúdo. Se eles não se sentirem confortáveis, junte-se a eles, mesmo que seja apenas para ler o poema em voz alta e gerar entusiasmo. Ajude outros professores a encontrar o poema certo sobre Matemática ou Geografia. Para os educadores de Ciências, novamente a poesia das formas tem grandes conceitos a ensinar, que tal ensinar Química utilizando haicais? 

Pequenas mudanças como essas podem trazer mais poesia na sala de aula e na vida de todos, impedindo que seja algo que fazemos uma vez e depois deixamos de lado pelo resto do ano. Então, a poesia é uma característica diária da sua sala de aula? Conte-nos sobre isso!