Quais as consequências do isolamento social no ensino-aprendizagem?

25 de fevereiro de 2021


Os humanos são seres sociais. Dessa forma, para a maioria das crianças e adolescentes, a escola é não só a primeira grande arena social, como a mais importante. Com o recente isolamento ocasionado pela pandemia do novo coronavírus (Covid-19), a maioria deixou de frequentar esse ambiente. Que tipo de consequências a quarentena pode ter então em suas vidas? Inclusive, com a prorrogação do ensino remoto para 2021 e a intensificação do ensino híbrido, alguns especialistas dizem que os impactos mentais, emocionais e acadêmicos dessas mudanças provavelmente serão desafiadoras para todo o processo de ensino-aprendizagem.

Saúde mental na escola

Crianças e jovens estão se adaptando a novas identidades. Descobrindo experiências e tentando encontrar seu lugar. Nesse cenário, a pandemia de Covid-19 pode piorar os problemas de saúde mental existentes e levar a mais casos, especialmente entre essas faixas etárias, devido à combinação única de crise da saúde pública, isolamento social e recessão econômica. Lembrando que saúde mental e desempenho acadêmico estão diretamente interligados. Já que o estresse crônico altera a estrutura química e física do cérebro, prejudicando as habilidades cognitivas, como atenção, concentração, memória e criatividade. 

Para se ter uma ideia da importância da socialização no processo de ensino-aprendizagem e na saúde mental na escola, um estudo quantitativo de 2014, feito com 4.227 adolescentes entre 13 e 19 anos na Noruega, examinou a extensão dos problemas de saúde entre essa faixa etária. Nele, comparou-se jovens com e sem amigos íntimos para confiar. Ao fim, descobriu-se que 1 em cada 3, dos que não tinham um amigo íntimo, relataram ter sintomas depressivos.

 

É preciso minimizar os impactos negativos das mudanças de rotina. Inclusive no que se refere às alterações para o universo digital, que cria uma nova gama de pressões sobre os jovens relacionadas ao uso correto das ferramentas, timidez em aparecer e participar, entre outras. Sem esquecer de mencionar que a ausência dos colegas e a falta de interação com a comunidade escolar ganha novos contornos quando relacionada à responsabilidade de cumprir sozinho as tarefas da escola.

Papel da atividade física

Fora toda a questão emocional, é provável que em casa as crianças e jovens permaneçam  mais  tempo sentados e em atividades paradas. Como jogos online, assistindo TV e até mesmo em aulas remotas. Consequentemente, há uma grande redução nos níveis de atividades que mexam com o corpo, evitem o sedentarismo e liberem a famosa endorfina. A atividade física tem um papel mediador. Quando praticada de forma vigorosa, pode minimizar as relações entre ansiedade e comportamento sedentário em crianças e adolescentes.

Do mesmo modo, o comportamento sedentário também tem efeitos sobre as estruturas  cerebrais. Conforme citado em um artigo da Revista Brasileira de Atividade Física & Saúde, “em recente estudo foi observado que maiores tempos destinados a assistir TV associou-se com menor volume de massa cinzenta em seis regiões do cérebro, mais tempo jogando videogame foi associado a redução de massa cinzenta em três regiões cerebrais e o tempo total de comportamento sedentário associou-se à redução de massa cinzenta em duas regiões do cérebro. Tais achados sugerem que crianças com sobrepeso/obesidade  podem  ter suas funções cognitivas prejudicadas pelo comportamento sedentário, devido a possíveis alterações na estrutura cerebral”. Esses resultados aumentam ainda mais a  preocupação com a saúde  mental e física durante o isolamento social.

Efeitos no ensino-aprendizagem: como ajudar?

Para as escolas que já reabriram ou para as que estão nesse processo de volta às aulas, muitos estudantes podem estar atrasados, em comparação com um ano letivo normal. Será preciso aos professores serem metódicos ao verificar, não apenas academicamente, mas também emocionalmente, quem precisa de ajuda. Alguns podem se sentir preparados para enfrentar o novo ano letivo de frente, mas outros ainda estão se recuperando de variados traumas, ansiedades e até luto.

Aqui estão algumas estratégias que podem ajudar:

Concentre-se primeiro nos relacionamentos 

O medo e a ansiedade sobre a pandemia – juntamente com a incerteza sobre o futuro – podem prejudicar a capacidade do estudante de vir para a escola pronto a aprender. Os professores podem atuar como um poderoso amortecedor contra os efeitos adversos do trauma, ajudando a estabelecer um ambiente seguro e de apoio para todo o processo de ensino-aprendizagem. De reuniões matinais a bate-papos casuais, estratégias que giram em torno da construção de relacionamentos serão necessárias.

Varie as avaliações

Os educadores devem se preparar para uma faixa maior de variação no aprendizado. Avaliações de baixo risco, como questionários, podem ajudar os professores a avaliar quanto apoio extra os alunos precisarão, quanto tempo deve ser gasto revisando o material do ano anterior e quais novos tópicos podem ser abordados.

Diferencie o ensino

Para a grande maioria das escolas, a transição abrupta para o aprendizado online deixou pouco tempo para planejar uma estratégia que pudesse atender adequadamente às necessidades de cada estudante. Os professores podem trabalhar para garantir que os discentes marginalizados nesse processo, recebam o apoio de que precisam, fazendo um balanço dos conhecimentos e habilidades de cada um e diferenciando a metodologia. Assim como dando opções e oportunidades. É a chance de conectar o currículo aos interesses populares e proporcionar múltiplas oportunidades de demonstrar que o ensino-aprendizagem vai bem.

Fonte: Consequences of social isolation for children and adolescents; Covid-19: como o isolamento social influencia a saúde mental infantil; Covid-19’s Impact on Students’ Academic and Mental Well-Being.