Entenda como escrever à mão atinge as redes cerebrais associadas ao aprendizado mais profundamente

29 de janeiro de 2021


Escrever à mão, digitar ou desenhar – qual dessas estratégias é a mais eficiente na dinâmica de ensino-aprendizagem? Com os dispositivos digitais chegando e substituindo cada vez mais processos manuais, é crucial examinar as implicações de longo prazo dessa prática. Lá em 2012, um estudo feito nos Estados Unidos, com crianças de cinco anos, apontou que a caligrafia pode facilitar a aquisição da leitura.

Para chegar a esses resultados, os pesquisadores pediram às crianças para imprimir, digitar ou escrever letras e formas, e ler o material depois. Em seguida, foi observado em uma ressonância magnética imagens do que cada estímulo ocasionou. Apenas durante a percepção da letra cursiva um real “circuito de leitura” foi documentado. Tais descobertas foram apontadas como uma demonstração de que escrever à mão é importante para o recrutamento precoce no processamento de certas regiões do cérebro conhecidas por serem a base de uma leitura bem-sucedida. 

Escrever à mão: cérebro se engaja de maneira diferente 

Ao contrário da visão de que a caligrafia é uma habilidade trivial, ela na verdade é importante por uma série de razões. Escrever à mão envolve todo um processo, a consequência é que melhora a memória e os estudantes retêm o aprendizado de forma mais efetiva ao trabalhar com novas ideias, escrevendo ao invés de digitar. Além disso, envolve o corpo de forma que a escrita se torna uma atividade mais holística. Existe algo físico e multidimensional em colocar a caneta no papel para formar palavras e frases.

É um espaço único para a criatividade se proliferar. Afinal, a escrita proficiente tem um fluxo e ritmo calmantes. Enquanto a tecnologia nos estimula a trabalhar com mais rapidez e intensidade, tarefas como escrever à mão podem ajudar a encontrar um equilíbrio saudável entre aprendizado e diversão. Ser capaz de dominar esse hábito, sem esforço, permite que a mente se concentre mais plenamente em um tópico. O que torna escrever à mão uma grande vantagem para o  processo de ensino-aprendizagem.

Como a caligrafia é uma ferramenta básica usada em muitas disciplinas – fazer anotações, testes, trabalhos em sala de aula e dever de casa para quase todas as áreas de conhecimento, a falta de prática pode ter um efeito generalizado no desempenho escolar. Além disso, quando a caligrafia é considerada árdua e demorada, a motivação para escrever pode ser muito reduzida, levando à conhecida preguiçinha.

Escrever à mão não é abandonar a tecnologia

Mais recentemente, um segundo estudo, feito em 2020 por uma equipe de pesquisadores da Noruega, observou crianças mais velhas (12 anos de idade) enquanto elas escreviam, desenhavam e digitavam palavras. A conclusão foi de que a caligrafia e o desenho produziam traços neurais reveladores, indicativos de um aprendizado mais profundo. Mas, isso não significa que devemos jogar fora nossos teclados! Crianças com doenças como disgrafia ou dislexia se beneficiam muito das tecnologias. Ademais, vivemos tempos onde todas as crianças precisam desenvolver habilidades digitais para se localizarem no mundo.

A sugestão dos próprios pesquisadores é desde cedo expor as crianças a atividades de escrita e desenho na escola para estabelecer os padrões de oscilação neuronal benéficos para o aprendizado. Assim, garantem-se os benefícios da integração sensório-motora e o maior envolvimento dos sentidos. Portanto, um ambiente de aprendizagem ideal precisa incluir o melhor dos dois mundos, considerando os pontos fortes e o suporte que cada um oferece. Dessa forma, tanto o desenvolvimento cognitivo quanto a eficiência do aprendizado são fortalecidos, e estudantes de todas as idades e seus professores podem acompanhar o desenvolvimento tecnológico e os desafios digitais que estão por vir.

Ideias para incentivar a escrita à mão

Aqui estão algumas ideias para ajudá-lo no incentivo da escrita à mão:

  • Dê-lhes motivos para escrever – uma carta, uma lista de compras, uma lista de desejos. Em grupo, peça a cada um da turma para escrever uma carta anônima. Em seguida, distribua-os em ordem aleatória e veja se eles conseguem reconhecer a caligrafia;
  • Crie uma atmosfera de escrita positiva. Uma possibilidade é reproduzir algum vídeo coerente ao conteúdo, pedir para anotarem pontos principais e comparar as anotações que todos fizeram;
  • Peça-lhes que descrevam eventos ou paisagens por escrito. Em seguida, verifique o trabalho deles e de feedback;
  • Faça um projeto como, por exemplo, um diário. Se eles usarem cores e lápis diferentes, o resultado final não será apenas educacional, mas também criativo;
  • Peça-lhes que escrevam poemas, histórias, ensaios e outras atribuições criativas à mão. A ideia principal é fazer com que todos se concentrem no processo de escrita.

O ideal é inserir mais momentos de escrita relacionados à criatividade e expressão pessoal, assim, os estudantes não entenderão o momento como uma atividade enfadonha que poderia ser mais ágil tecnologicamente.

revista Arco 43